sábado, 22 de setembro de 2007

eu vim lááá da fronteira e não sei falar javanês

EXPERIÊNCIAS NO TRÊS FRONTEIRAS - mediador José
(O Espaço Onde O Tempo É Outro, As Questões São Polêmicas E Os Mediadores São Iluminados)

18/09

Foi levantada uma importante questão pelo nosso coordenador Montanha, a respeito do fechamento dessas oficinas que estão sendo feitas no espaço da Mostra Três Fronteiras. Mais especificamente a condução que me cabe. Isso porque venho trabalhando bastante com a sugestão de ações (dramáticas?), relacionando os indivíduos a papéis sociais, papéis esses presentes no processo de criação das obras expostas nesta mostra.

E como a oficina acaba se expressando fundamentalmente pela discussão e ação dos papéis, fica a dúvida sobre o link com a arte visual e contemporânea. Será que os participantes das oficinas estão fazendo as relações com as obras? Bom, pessoalmente, sempre acho que a experiência é válida e que ela produz resultados, mesmo a médio e longo prazos. É claro que o fechamento verbal pode, muitas vezes, contribuir no sentido de oferecer um elemento a mais (a voz, a idéia, o pensamento) na hora de o indivíduo relacionar as coisas. Mas não tenho a menor dúvida de que, mesmo sem a verbalização ou o fechamento conceitual ou o link direto com o campo das artes, alguma coisa acontece. Ainda mais se se tornar possível e direta a relação dos questionamentos elucidados pelos artistas com acontecimentos da vida cotidiana.

De toda forma, essa questão levantada pelo Montanha me fez pensar diferente e me preparar um pouco mais antes das oficinas no Três Fronteiras.

Fiquei contente ao ver que mais uma vez cabia a mim ministrar uma oficina para surdos. E dessa vez no Três Fronteiras. Imaginei estar nesta turma a possibilidade de trabalhar uma nova forma de ver esta mostra. E a experiência foi bem satisfatória.

Após situar o contexto da Mostra em questão, propus que eles fossem artistas que estavam em Porto Alegre, mais especificamente no cais, como se aqui fosse a Tríplice Fronteira – idéia lançada pelo próprio Montanha. Aqui eles encontraram um exemplar de uma espécie de sapo que estaria em extinção. Como os artistas poderiam resolver esse problema com uma obra?

Eles foram divididos em três grupos. Cada qual dispôs de um tipo de material diferente para realizar o trabalho: giz de quadro, papel e giz de cera e o próprio corpo. Foi ótimo, mais uma vez, ver como eles resolveram de maneiras tão diversas a proposta.

O grupo com o giz, riscando na mesa, compôs uma série de manifestações da natureza. Eles sugeriram que o sapo precisaria estar em contato com a natureza, com a árvore, com a chuva (chovia no dia), para poder se sentir melhor.

O grupo com o giz de cera e as folhas de papel (preto) desenharam um grande sapo e um grande menino. Para eles, era necessário que o homem cuidasse do sapo para que ele não se sentisse sozinho e não se extinguisse.

O grupo que iria criar uma obra dramática sugeriu que cada um deles seria um animal. Fizeram um círculo, com o sapo no centro e, após falar como cada um cuidaria do sapo, fizeram uma grande roda em torno dele para protegê-lo.

Por motivos óbvios, não foi possível fazer um fechamento verbal profundo, mas tenho certeza de que a experiência visual, tátil e corporal, movidas para resolver a questão foram (ou serão) suficientemente transformadoras.

19/09

Montanha e eu passamos para o espaço do Três Fronteiras. Lá pegamos cada qual uma turma da mesma escola (Luciana de Abreu, de Viamão), de 3ª e 4ª séries. Os trabalhos foram muito bons. Convido o Montanha a compartilhar a sua aqui.

Quanto à que me coube, como fiquei sabendo que eles tinham passado pelo William Kentridge, propus que, distribuídos em 3 mesas, compusessem um quadro, inspirados pelo artista, mas de maneira livre e usando giz.

Em seguida, busquei fazê-los ver que o que tinham criado era uma maneira própria de expressão do grupo, de identidade. Aquilo que tinham feito na mesa era como o grupo deles falava, se identificava, assim como fizeram os moto-taxistas do Jaime Gili. Eles tinham a tarefa, então, de transferir para o papel todos os símbolos que consideraram interessantes e que poderiam compor o ALFABETO DO SEU GRUPO.

O resultado foi bem interessante, a ponto de uma menina chegar e me perguntar se poderia continuar fazendo aquilo na escola, depois. Fiquei imaginando que isso poderia render bastante, eles realmente criando outros símbolos – já menos presos ao condicionamento inicial – e produzir os adesivos para se identificarem. Talvez numa oficina maior.

22/09

Surge a luz que faltava, enquanto folheio um livro de obras do Daniel Bozhkov (outros mediadores: visitem a biblioteca aqui do Espaço Educativo: tem bastante material interessante). Há um trabalho do Daniel que consistiu basicamente no seguinte: visitando Istambul (capital da Turquia), ao lado de sua mãe, Daniel observou que ali estava muito presente a cultura turca, da qual ele se origina, mas que, num certo aspecto, permanece ali, de maneira quase clandestina. Com a anexação do país ao Império Otomano, grande parte dos costumes e palavras se perde e se dilui. É graças à existência de pessoas como a mãe de Daniel que essas palavras ainda podem ser ouvidas e compartilhadas. Então ele faz uma relação destas palavras que vai ouvindo e as transcreve de forma iconográfica. Seleciona alguns símbolos mais significativos e, após um diálogo com os confeiteiros, os convence a produzir pretzels nos formatos dos ícones – inclusive ajudando-os a fazer. Segundo Daniel, até agora eles seguem produzindo os pretzels nos formatos bizarros.

Bom, expondo-lhes esse breve (e não livre de erros) resumo, proponho que, divididos em grupos, relembrem de palavras e expressões ligados à sua cultura, aos seus antepassados. Eles listam dez palavras. Então, reproduzem graficamente sete dessas dez. Em seguida, tornando os desenhos o mais sintéticos e diretos possível (como os ícones, as logomarcas), eles os transferirão para etiquetas adesivas, que poderão ser usadas para identificar o grupo ou, melhor, popularizar, tornar visível (assim como fazem os publicitários) uma expressão que não é muito conhecida, que pode até ser risível aos ouvidos dos amigos.

A referência direta, além do Daniel e da Minerva Cuevas, que adultera logomarcas de grandes empresas para re-etiquetar produtos no supermercado, é o último trabalho que eles viram na Mostra Três Fronteiras, o do Jaime Gili. Busco atentá-los para as cores que são usadas com freqüência na publicidade, inclusive na palavra TAXI, do Jaime; também para as formas, para a transformação de palavras em desenhos, etc.

A turma é um 3º ano do Ensino Médio, da cidade de Araricá, a uma hora de Porto Alegre. Eles se mostram muito tímidos, inclusive durante todo o percurso da mediação, mas os resultados são bastante satisfatórios. Apesar da timidez, eles estão atentos e se envolvem no trabalho. Ao fim, a diretora da escola falou a eles que estava surpresa, pois eles eram muito agitados em sala de aula.

Acabei passando uns dez minutos do tempo previsto, mas foi por uma boa causa. Eles estavam mais à vontade no final e, depois de eu pegar algumas logomarcas de “presente” e colar no jaleco bobesponjístico, alguns fizeram o mesmo. Também foi ótimo ouvir alguns falarem sobre as expressões que originaram os ícones.

Eis algumas:

TOSCO
MEU CHAPÉU! (algo como MINHA NOSSA!)
TÁ LIGADO?
FORA DA GAIOLA (ou GALOIA)
ZIZINHO (como a vó de um deles o chama)
PRETO (designação para camarada, grande amigo)
BIZONHO

Vê-se que, em geral, eles permaneceram na sua linguagem cotidiana (fato também atentado pela diretora), mas isso era de se esperar. De todo modo, acredito que esse tema rende uma boa oficina de fim-de-semana, com pessoas mais velhas também, com as quais podemos trocar relatos dos antepassados.

Imagino que se perceba aqui uma boa evolução a partir da provocação e do questionamento do Montanha. Fiquei bastante satisfeito e louco para mais provocações.


e aqui um pouco do Anibal Lopez, por Estêvão

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